CRÔNICA DA SEMANA 55

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O SORRISO DESDENTADO DE MONALISA

Por Viegas Fernandes da Costa

Alunos nos perguntam coisas surpreendentes. Outro dia, lecionando História Moderna para uma turma de curso noturno, fui arrebatado por uma questão, no mínimo, curiosa.

Discutíamos a arte renascentista, os quadros de Rafael e Da Vinci, quando Gisele, lá do alto da sua dúvida e da frescura da sua adolescência, questionou-me a respeito dos dentes de Monalisa. Haveria dentes na boca da burguesa de sorriso enigmático, pintada pelo visionário Leonardo? Eis a pergunta que me foi feita, e calcule, amigo leitor, amiga leitora, se é possível respondê-la. E além, haveria dentes nos quadros do Renascimento? Confesso que procurei: Rafael, Botticelli, Van Eyck, Michelangelo, Dürer… nada! Nenhum molar sequer! Lábios cerrados, bocas fechadas! Eis tudo e o mistério: acaso não possuía dentes toda esta burguesia recém enriquecida? Custaria, não os olhos da cara, mas os dentes da boca, o trabalho de um exímio pintor daquela época? Temos um problema, e para todo problema, hipóteses. Formulei a minha: ainda não haviam inventado a escova de dentes.

Sim, a escova de dentes! Talvez algum leitor melhor conhecedor das curiosidades históricas venha me informar que escovas de dentes já existem há pelo menos cinco mil anos, invenção dos egípcios. Não duvidarei, mas sei também que foram os chineses – sempre eles – que, lá por volta de 1498, inventaram a primeira escova dental de cerdas, feitas de pêlos de animais (leia-se porcos) amarrados à pedaços de ossos ou bambus e que, devido o mofo, enchiam a boca de fungos. Daí até a invenção chegar à Europa, passou-se um bom tempo. E mais, ainda que conhecedores de tão curioso e fedorento instrumento para limpar os dentes, havia uma grande distância entre o conhecer e o usar, principalmente se considerarmos que hábitos de higiene não eram lá muito comuns entre os europeus da época, cujos banhos de uma vida contavam-se nos dedos das mãos. Fico então imaginando uma linda cena de amor acompanhada de um profundo beijo de bocas: lábios, línguas e os restos da refeição do dia anterior. Um romantismo digno de Shakespeare, este também renascentista. Pois é!

Escovas de cerdas de nylon, higiênicas e que não feriam as gengivas, só mesmo a partir de 1938. Século XX, portanto. E segundo uma pesquisa realizada junto à população dos Estados Unidos pelo Instituto de Tecnologia de Massachussets em 2004, este invento foi a maior criação humana de todos os tempos. Seria esta a opinião de quem vive rindo dos outros? Hum… mas bem, fato é que se a mesma pergunta fosse feita aos brasileiros, mais de oitenta milhões talvez dariam alguma outra resposta, já que é este o número de pessoas que não possuem escovas dentárias. Pelo menos é o que dizem as estatísticas.

Mas vamos retornar à questão principal, não é mesmo? Se não escovavam os dentes, supomos serem desdentadas ou podres as bocas destes que hoje vemos sorrir comedidamente nas imagens renascentistas. Hipótese plausível, o leitor, a leitora, há de concordar. E penso mais: será também por isso que ao sorrirem, escondiam as damas das cortes suas bocas sob enormes e decorados leques? Quem sabe?

E assim respondemos a um dos maiores enigmas da história da arte: o sorriso de Monalisa, que tantas especulações já alimentou. Faltava-lhe os dentes, e pronto!

Blumenau, 05 de junho de 2005

© Viegas Fernandes da Costa. Permitida a reprodução desde que citado o autor e o texto mantido na íntegra. Caso você queira adquirir o livro “Sob a Luz do Farol”, de Viegas Fernandes da Costa, o mesmo pode ser encontrado no site www.livrariascuritiba.com.br .

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